Se você acha que a disfunção é exclusividade de mulheres maduras e nem dá bola para o assunto, mude já sua linha de pensamento. Entre as mais novas, ela é mais comum do que se imagina. Ocorre que, no início, os sinais são sutis e consistem em pequenos, digamos, deslizes na hora de tossir ou fazer um pouco de força. Mas é justamente nessa fase que os tratamentos são simples e eficazes e podem evitar que o problema evolua, comprometendo a qualidade de vida.
Tamanha é a importância de reverter a encrenca precocemente, ou, melhor ainda, de impedir que ela dê as caras, que o assunto mobilizou cientistas da Universidade de Otago, na Nova Zelândia. Eles acabaram de revisar 15 estudos envolvendo 6 181 mulheres jovens que já tinham passado por uma gravidez, em busca de uma solução para a incontinência. Não à toa. “Até 30% das gestantes sofrem de episódios de escape de urina, que, muitas vezes, persistem após darem à luz”, afirma o urologista Fernando Almeida, da Universidade Federal de São Paulo. A autora da pesquisa neozelandesa, Jean Hay-Smith, explica o motivo. “O peso e o tamanho do bebê sobrecarregam a chamada musculatura do assoalho pélvico, responsável por controlar a saída da urina. Sem contar que o parto provoca traumas ali, principalmente quando é normal”, diz.
A cesárea também representa riscos, embora menores, porque as contrações e o encaixe do bebê que precedem a cirurgia por si sós causam impacto na região. “Além disso, as mudanças hormonais da gestação alteram os tecidos, deixando-os mais elásticos para preparar o corpo para o parto”, completa. Resultado: as estruturas responsáveis por controlar a micção ficam frágeis, perdendo parte de sua função. E, claro, quanto maior o número de gestações, maior a chance de a incontinência progredir. Felizmente, há como prevenir as conseqüências. “Concluímos que exercícios específi cos de contração e relaxamento dessa musculatura reduzem pela metade a ocorrência de incontinência nas futuras mamães”, diz Jean (leia mais nas páginas seguintes).
Quem não tem filhos também precisa ficar alerta. Sim, as gestações são o principal fator desencadeante, mas há outros gatilhos capazes de defl agrar a chateação. “Traumas na coluna, como pancadas em acidentes, as vezes atingem os nervos da bexiga, reduzindo sua sensibilidade”, exemplifica o ginecologista Edilson Ogeda, doHospital Samaritano, em São Paulo. “O mesmo vale para doenças neurológicas, que podem atrapalhar os comandos cerebrais responsáveis por ordenar a micção”, conclui.
Manter a silhueta também tem seu preço. As pessoas que abusam dos exercícios físicos precisam ficar ainda mais de olho na musculatura pélvica. Excesso de abdominais pode deixá-la flácida. “Já esportes como o judô, o atletismo e o vôlei, considerados de alto impacto, às vezes deslocam a bexiga para baixo, forçando o assoalho”, alerta a ginecologista Ivani Kehdi, do Hospital São Luiz, em São Paulo. Toda mulher pode ainda sofrer de incontinência provocada por infl amações ou infecções urinárias, mas aí ela costuma ser transitória. Conheça, a seguir, a melhor forma de prevenir ou reverter a disfunção.
Antes de tudo, é importante entender o que acontece no organismo quando o tal assoalho pélvico é prejudicado. Em condições normais, a urina é armazenada na bexiga. Quando esse reservatório natural fica cheio, ele se esvazia por meio de um canal, a uretra. Ela, por sua vez, possui músculos que se contraem e relaxam, atuando como uma torneira que abre e fecha, para reter ou expulsar o líquido. Acontece que, algumas vezes, esses tecidos estão fora de forma e não funcionam a contento, deixando o xixi vazar.
A melhor maneira de evitar que isso ocorra é se antecipar, combatendo os fatores que colaboram com a incontinência. A obesidade é um deles. “Além da sobrecarga promovida pelo excesso de peso, a própria gordura se infiltra nos músculos locais, tornando-os mais fracos”, explica o urologista João Luiz Amaro, da Universidade Estadual Paulista, a Unesp, em Botucatu, no interior de São Paulo. Para os diabéticos, o risco da disfunção é mais um motivo para controlar a doença. “Taxas de glicose descontroladas danificam os nervos da bexiga, contribuindo para o problema”, afirma Ogeda.
Quem fuma, por sua vez, deve apagar o vício. “O cigarro geralmente vem acompanhado de tosse. E, ao tossir, você exerce pressão no assoalho pélvico. Sem contar que o tabaco compromete a oxigenação dos tecidos e, conseqüentemente, sua função”, afirma Ivani. Segundo ela, a constipação pode ser outra agravante e deve ser tratada, já que o esforço para fazer o intestino funcionar costuma forçar de um jeito indevido a musculatura vizinha.
Se, apesar de tantos cuidados, a goteira continuar pingando — mesmo que discretamente —, não ignore o fato. Procure um especialista. Às vezes, um mero exame clínico é suficiente para fazer o diagnóstico. “Caso seja necessário tirar a prova dos nove, lançamos mão do teste urodinâmico”, conta o urologista Cristiano Gomes, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Durante esse exame, o médico solicita que se façam manobras de esforço enquanto uma sonda registra o processo de esvaziamento da bexiga, o fluxo, a pressão e a velocidade dos jatos de urina. Uma vez detectada a incontinência, é hora de partir para o tratamento.
Em estágio inicial, os exercícios de fisioterapia são a melhor pedida. “Podemos recorrer à estimulação elétrica para fortalecer os músculos de forma passiva. Há também o biofeedback, técnica em se pede ao paciente que contraia e relaxe os músculos enquanto os registros desses movimentos são visualizados na tela de um computador. Assim, ele passa a ter consciência do funcionamento dessa musculatura”, explica Ivani. E, finalmente, existem exercícios específicos de contração e relaxamento, uma espécie de musculação para o assoalho pélvico. Aliás, eles também funcionam como um excelente método preventivo. “São recomendados principalmente para as atletas, para as mulheres que tiveram filhos ou que pretendem tê-los e para aquelas cuja atividade exige certo esforço, caso de donas-de-casa que se dedicam à faxina”, completa Ivani. Quer um estímulo? Esses exercícios também ajudam a melhorar o desempenho sexual, já que estamos falando de músculos que circundam a vagina e colaboram para um atrito prazeroso.
Diante de medidas tão simples, o grande erro é esperar que o problema evolua a ponto de causar desconforto e constrangimento. Isso fatalmente levará a um tratamento mais invasivo. Em português claro: a uma cirurgia. Não perca tempo!
**por ADRIANA TOLEDO
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Fonte:http://saude.abril.com.br/edicoes/0305/medicina/conteudo_402524.shtml?pag=1